A diferença entre vida simples, simplicidade voluntária, minimalismo e frugalidade

Atendendo a um questionamento da leitora Marina, autora dos ótimos blogs Um ano sem compras e 365 ideias para viver melhor, vou tentar explicar, a partir do meu ponto de vista, a diferença (se é que existe) entre vida simples, simplicidade voluntária, minimalismo e frugalidade. Logo de início, devo ressaltar que não sou nenhum especialista no assunto, mas apenas alguém que tem pesquisado sobre isso.

Pois bem, se excluirmos os antecedentes budistas, filosóficos e cristãos sobre a simplicidade, modernamente podemos citar Henry David Thoreau como o primeiro propagador do estilo de vida simples ao publicar seu livro “Walden” em 1854, no qual relata sua experiência de 2 anos vivendo na mais absoluta simplicidade, como uma forma de protesto contra a modernização da vida e 0 capitalismo. Mais tarde, em 1980, Duane Elgin, com seu livro “Simplicidade Voluntária”, retoma esse termo, também propagando esse estilo de vida. Como uma variante (ou uma releitura) da vida simples de Thoureu e da simplicidade voluntária de Elgin, em meados dos anos 2000 surge o minimalismo com ícones famosos como Leo Babauta (importante destacar que o minimalismo comportamental não tem nada a ver com o movimento artístico das décadas de 50 e 60, pode ter até alguma influência, mas conceitualmente está mais próximo do termo vida simples). Já frugalidade, em minha opinião, é resultado de uma vida simples (ou simplicidade voluntária, pois para mim são sinônimos), visto que ela faz com que tenhamos hábitos mais econômicos. Prosseguindo, vamos a algumas definições formais:

  • Vida simples ou simplicidade voluntária: Para Thoreau é “sugar todo o tutano da vida e se defrontar apenas com os fatos essenciais da existência, para aniquilar tudo o que não é vida, e para, quando morresse, não descobrisse que não tinha vivido!”. Já Duane Elgin define como sendo  “uma maneira de viver exteriormente mais simples e interiormente mais rica, um modo de ser no qual nosso eu mais autêntico é posto em contato direto e consciente com a Vida” [Duane Elgin]. Na concepção de Elgin, simplicidade voluntária não tem nada a ver com pobreza, pois esta é debilitante, degradante e quase sempre imposta, não se trata de escolha.
  • Minimalismo: Para Leo Babauta “é simplesmente se livrar de coisas que você não usa ou precisa, criando um ambiente organizado e uma vida simples, despojadamente simples. É viver sem uma obsessão com coisas materiais ou uma obsessão em fazer tudo e muita coisa”. Já para Joshua e Ryan (The minimalists), minimalismo “é uma ferramenta utilizada para se livrar dos excessos da vida em favor de se concentrar no que é importante para que você,  de modo que possa encontrar satisfação, felicidade e liberdade”.
  • Frugalidade: Para Joe Dominguez e Vicki Robin, “é equilíbrio. Ser frugal é usar adequadamente, administrar sabiamente o dinheiro, o tempo, a energia, o espaço e os bens materiais. A frugalidade é algo assim: não é demais e não é muito pouco, é adequado. É o suficiente”.

Resumindo, para mim, vida simples e simplicidade voluntária são sinônimos e defino como sendo um esforço deliberado para apartar de nossa vida toda a complicação desnecessária. Esse esforço é feito de forma consciente, com o intuito de equilibrar aspectos interiores e exteriores do ser humano, em busca de um propósito de vida gratificante e sustentável. Desse esforço resultará, inevitavelmente, a frugalidade, ou seja, a utilização adequada de nosso dinheiro, tempo, energia e recursos. A frugalidade está diretamente relacionada com economia financeira e o uso adequado (até o desgaste ou o compartilhamento) de seus bens materiais. Esse estilo de vida está preocupado em promover uma vida mais sustentável, tanto do ponto de vista social como econômico e ecológico. Já o minimalismo, me parece uma variante, talvez inconsciente, dessa vida simples, ou uma releitura feita pelos jovens da geração y.

Portanto, não há grandes diferenças conceituais entre a simplicidade voluntária e o minimalismo comportamental, ambos os conceitos buscam, na realidade última, um jeito alternativo de viver a pós-modernidade sem ser reféns de um consumismo desenfreado e insustentável. Essa busca consiste na valorização daquilo que é essencial para o ser humano, seja lá o que esse essencial signifique para cada um, mas que normalmente tem a ver com liberdade, felicidade, satisfação e simplificação da vida. Enquanto a simplicidade voluntária faz mais sentido para os mais velhos, o minimalismo instiga e inspira os mais novos, mas de um jeito ou de outro, a língua que se fala e os resultados que se buscam são os mesmos: menos complicação, mais vida.

Bom é isso, espero ter ajudado… até o próximo artigo!

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10 opiniões sobre “A diferença entre vida simples, simplicidade voluntária, minimalismo e frugalidade

  1. Belo texto! Já havia percebido que os blogs minimalistas são focados na diminuição do consumo e das posses, como você bem apontou, e pouco falam sobre as questões de sustentabilidade nas nossas escolhas. Também concordo que no final tudo leva a um mesmo caminho, mas mesmo assim, embora as diferenças sejam poucas ainda prefiro a palavra “simples” à palavra “mínimo”. O blog está excelente. Parabéns!

    • Patrícia, muito obrigado pela visita e pelo elogio! Fico feliz que concordamos em bastante coisas.

      Em um e-mail enviado pela Marina para mim, ela aponta uma outra dirença que ela percebeu: a questão estética, que parecer ser algo importante para o minimalismo.

      De qualquer modo, o potencial resultado cultural, social, ecológico e econômico que esses movimentos podem gerar é que vale apena acreditar, ou fazendo um trocadilho com o nome de seu blog: simplesmente acreditar!

      Um abraço e fique na paz!

    • Olá Marcos, parabéns pelo blog, como você, tb estou trilhando essa filosofia de vida, pesquiso na internet, livros etc. e depois que entendi os conceitos, tirei um peso enorme de minhas costas, como se fosse um alívio não ser obrigado a seguir os padrões de consumo impostos pela mídia, pela sociedade. Você soube bem explicar as diferenças pelo seu ponto de vista, acho que no fundo o importante e chegar ao mesmo objetivo, viver uma vida mais plena de bem estar, abraços.

      • Valeu Fabiano, obrigado! Concordo contigo quando diz que a simplicidade de vida nos liberta de várias amarras do estilo de vida, praticamente imposto, pela nossa sociedade. A simplicidade é liberdade, é escolha. A simplicidade nos ajuda a focar naquilo que realmente importa! Espero vê-lo sempre por aqui.

        Um abração!

  2. Marcos, gostei muito do post e ele me ajudou a definir o que venho fazendo. Na verdade essa minha pergunta vem de um desejo de poder explicar melhor o que eu estou tentando alcançar na minha vida pessoal e poder compartilhar esse processo com os leitores do meu blog Um Ano Sem Compras (que já deixou de ser um blog somente sobre consumo consciente). Assim como a Patrícia, também prefiro o termo “simples”. Já li Thoreau e tenho certeza absoluta de que não conseguiria fazer o que ele fez, pelo menos nesse momento da minha vida, mas estou tentando viver o que seria uma vida simples para mim. E percebo hoje que isso é um processo pra vida toda.

    • Puxa Marina, fico muito feliz porque o post te ajudou, pois isso faz parte da missão do blog.

      Confesso que, assim como você e a Patrícia, prefiro o termo simples, mas não posso negar que flerto com algumas ideias do minimalismo.

      A experiência de Thoreau, para mim, é como se fosse um retiro espiritual intensivo de simplicidade. Com certeza deve ser muito gratificante, mas creio, como você, que isso é um processo para a vida toda, mesmo para nós que vivemos em um ambiente urbano.

      Creio, também, que trilhar esse caminho em comunidade é bem mais fácil, pois podemos aprender as coisas juntos e nos ajudar mutuamente nesse caminho.

      Um abraço!

      • Oi Marcos e Marina, tem que ter coragem para fazer o que Thoreau fez. A prudência sempre me lembra que nunca vou experimentar a vida como ele. Mas acho que ser simples também é isso, não se levar nem ao sério, nem ao trágico e ir seguindo nosso pequeno caminho de coração leve sem muita pressa.

        Um grande abraço fraterno aos dois.

      • É verdade Patrícia, concordo contigo. Não precisamos viver o que ele viveu para desfrutar de uma vida simples, ou seja, basta simplificar onde estamos e teremos o mesmo ou algo bem parecido. Um abraço e fique na paz!

  3. Pingback: Hello world! | Diário de uma Vida Simples

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